Corria o ano de 1981. Numa fria madrugada, um grupo de jovens fotógrafos e fotógrafas belo-horizontinos descia por um beco em Diamantina. Dirigiamo-nos ao hotel, esperando encontrar pesados cobertores, que nos pudessem abrigar, mas… ao passar perto de um boteco, ouvimos o belíssimo som de violões e flauta, esta última interrompida de quando em vez pela voz altissonante de uma personagem.

Como não entrar? Os cobertores iriam esperar…

Ali havia dois grupos: três violeiros e o homem da flauta e da voz e ao lado, tomando todas as cervejas e cachaças disponíveis, outro grupo ouvia fascinado. Juntamo-nos a este segundo grupo e ouvimos várias serestas, entre elas a rainha de todas as serestas, “Chão de estrelas”.

Ficamos ali um bom tempo, extasiados, depois nos despedimos e fomos para o hotel. Incrível, sequer perguntamos os nomes dos artistas.

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Apenas por um acaso muito grande eu vim a saber do flautista-cantor. Uns vinte anos após o relatado, eu estava em Diamantina com uma turma de História do Uni-BH. Fomos agraciados com uma seresta e eis que eu reconheci um dos violeiros daquela noite.

Aproximei-me, puxei conversa e era realmente ele.

– Você tinha um grupo de seresta, não tinha? Há bastante tempo eu ouvi vocês tocando…

– É verdade, a gente era um grupo.

– Tinha um senhor que cantava e tocava flauta. Cadê ele?

– “Ah… o compadre Boanerges… já morreu!”

Uma pena! Os sons da flauta e a voz dele vieram à minha memória. Fica aqui uma homenagem. Você, leitor, você leitora, poderão ouvir o grande autor de Chão de estrelas. Acompanhem a letra. Eu destaquei aqueles versos que considero como dos mais belos da verdadeira música brasileira.

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http://www.youtube.com/watch?v=Li5SWL5tISE&feature=related

CHÃO DE ESTRELAS
(Silvio Caldas-Orestes Barbosa)

Minha vida era um palco iluminado.
Eu vivia vestido de dourado,
palhaço das perdidas ilusões.
Cheio dos guizos falsos da alegria
andei cantando a minha fantasia
entre as palmas febris dos corações…
Meu barração, no morro do Salgueiro,
tinha o cantar alegre de um viveiro;
foste a sonoridade que acabou…
E, hoje, quando do sol a claridade
forra meu barracão, sinto saudade
da mulher pomba-rola que voou…

Nossa roupas comuns dependuradas
na corda, qual bandeiras agitadas,
pareciam um estranho festival.
Festa dos nosso trapos coloridos
a mostrar que nos morros mal vestidos,
é sempre feriado nacional.
         A porta do barraco era sem trinco,
         mas a lua, furando o nosso zinco,
         salpicava de estrelas nosso chão…

Tu pisavas nos astros, distraída,
sem saber que a ventura desta vida
é a cabrocha, o luar e o violão.

Um olhar sobre as Origens do Gênero “Seresta” confirma o que dissera o grande flautista brasileiro Carlos Poyares – na apresentação de seu disco Brasil, Seresta:  no passado, grupos de músicos, saindo das festas, detinham-se às janelas de suas pretendidas, para tocar e cantar  madrugada a dentro, constituindo um costume boêmio que nós herdamos, como tantos outros, da Península Ibérica. Passando a denominar-se seresta, serenata ou sereno, essas primeiras manifestações, no Brasil, fizeram-se muito antes do lampião de gás… à luz da lua..

A seresta jamais representou uma atividade isolada no contexto musical do País. Ao contrário, relaciona-se intimamente com outras manifestações musicais.O estilo escolhido para uma atividade de seresta pode ficar a critério ou ao gosto dos apreciadores .

 O que predomina é a linha melódica romântica, suave, envolvente… mas podem entrecruzar-se, na seresta, vários ritmos que, com arranjos devidamente adaptados, prestam-se perfeitamente a uma adorável serenata:

 – a modinha tradicional; a canção romântica;

 – o lundu (lundu-canção),o samba (samba-canção), o choro (choro-canção);

– o bolero, a valsa, a toada, a guarânia;

 –  o fox-canção (que o diga o seresteiro que canta “Nanci”!);

 – O chorinho; esse ritmo tão especial carregado de brasilidade…

 – até o fado, o tango! (quem não aprecia ouvir “El dia que me quieras” em ritmo de samba-canção?);

 – e tantas outras que a criatividade do seresteiro inspirar…

(Texto reproduzido do Portal da Seresta Brasileira http://www.orizamartins.com/historia-da-seresta-brasileira.htm )