Eu era adolescente quando vi esta foto pela primeira vez. Tornei a vê-la em 1976, como parte do documentário “Corações e Mentes”, no velho cine Pathé, na Savassi. Coloquei esta foto em vários livros didáticos que escrevi, para mostrar o horror da Guerra do Vietnã.

Hoje, no blog do Nassif (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-menina-da-foto-no-vietnam-presta-sua-homenagem) li esta matéria, originalmente publicada no jornal O Globo. Achei de bom tom reproduzir a matéria. Meus leitores acima dos 40 provavelmente se recordarão, os mais novos poderão aprender.

 

Vietnamita eternizada em foto homenageia seus salvadores

 

Kim Phuc prepara jantar, 40 anos depois do dia em que foi clicada em bombardeio

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A médica My Le e o fotógrafo Nick Ut abraçam Kim Phuc em jantar oferecido pela vietnamita, 40 anos depois da foto de Ut que eternizou a guerra do Vietnã (no detalhe)JAE C. HONG/AP

TORONTO — Na foto, ela terá sempre 9 anos, gritando “queima! queima!”, enquanto foge de sua aldeia vietnamita em chamas. Estará sempre nua, vítima do napalm que lhe queimou a roupa e a pele. Será sempre uma vítima sem nome. A imagem que se tornou símbolo dos horrores da Guerra do Vietnã, tirada pelo fotógrafo Huynh Cong Nick Ut, completou nesta sexta-feira 40 anos. A foto também salvou a vida de Kim, que vive hoje com a família em Toronto. Para marcar as quatro décadas da fotografia, ela organizou um jantar de homenagem àqueles que a salvaram, como o fotógrafo, médicos e jornalistas.

— Sempre quis fugir desta recordação, mas parece que a foto não me deixa ir — diz Kim Phuc, a menina da foto, que agora tem 49 anos.

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Kim lembra de ter visto o rastro das bombas amarelas e roxas sobrevoando o templo onde sua família estava refugiada há três dias, enquanto forças do Vietnã do Norte e do Vietnã do Sul se enfrentavam pelo controle da região de Trang Bang. Rapidamente as chamas alcançaram o braço esquerdo de Kim. Sua roupa de algodão derreteu ao contato. “Serei feia, não serei normal e as pessoas me verão de um modo diferente”, relembra Kim, sobre o que pensou na hora do ataque, enquanto esfregava com a mão direita o braço queimado. Ela saiu correndo e não viu os jornalistas estrangeiros que corriam na direção de onde ela fugia. E então perdeu os sentidos.

Depois de tirar a foto, Ut, também vietnamita e com 21 anos na época, levou Kim a um pequeno hospital, onde lhe disseram que mais nada mais poderia ser feito. Ele mostrou sua credencial americana de jornalista e implorou para que os médicos não esquecessem da menina.

— Chorei quando vi ela correndo. Fui ajudá-la porque sua pele estava se desprendendo do braço e das costas. Não queria que ela morresse. Deixei a câmara e comecei jogar água nela. Depois, a coloquei no meu carro e fomos para o hospital, mas sabia que ela poderia morrer a qualquer momento — disse Ut, que teve o irmão mais velho morto no delta do rio Mekong — Se eu não ajudasse, se algo acontecesse e ela morresse, acho que me mataria.

Ao voltar ao escritório em Saigon, o fotógrafo contou o que tinha acontecido. A foto, que a princípio havia sido vetada pela política da agência contra a nudez, acabou sendo publicada. Alguns dias depois, outro jornalista encontrou a menina. Christopher Wain, correspondente de uma emissora britânica independente, deu a Kim água e lutou para que ela fosse transferida a uma unidade médica operada por americanos. Era a única instalação em Saigon equipada para atender suas lesões.

— Acordei e estava no hospital com muita dor e com enfermeiras ao meu redor. Não tinha ideia de onde estava e do que tinha acontecido. Todos os dias, as enfermeiras retiravam a pele morta. Eu apenas chorava e, quando não suportava mais de dor, desmaiava — lembra Kim.

Vietnamita é hoje embaixadora da Boa Vontade da ONU

Um terço do corpo da menina teve queimaduras de terceiro grau, mas seu rosto ficou intacto. Depois de muitos enxertos de pele e cirurgias, ela teve alta, 13 meses depois do bombardeio. Soube que a foto de Ut havia ganhado o prêmio Pulitzer, mas ainda não tinha ideia do alcance da imagem pelo mundo.

— A foto foi um presente poderoso e acho que o mundo é melhor graças à ela. A imagem fez com que o povo adquirisse mais consciência do que é uma guerra — diz Kim.

Depois de retornar à vida cotidiana, Kim conseguiu entrar na faculdade de medicina, mas os líderes comunistas perceberam o valor de propaganda da “menina do napalm” que aparecia na foto. Ela se viu obrigada a deixar a faculdade e voltar para sua província de origem, onde participava de encontros com jornalistas estrangeiros, em reuniões vigiadas e controladas. Como ela define, havia se tornado então “uma outra espécie de vítima”.

Ela conta ter superado a raiva ao descobrir a religião. A mesma imagem que a fez famosa foi a responsável por permitir que ela seguisse outros caminhos. Em 1982, Kim viajou para a Alemanha para tratamento médico, com a ajuda de um jornalista estrangeiro. Comovido com sua história, o governo vietnamita fez os arranjos necessários para que ela estudasse em Cuba. Quando ainda era uma estudante, Kim conheceu Bui Huy, com quem se casou em 1992. Os dois decidiram passar a lua de mel em Moscou. Na viagem de volta a Cuba, desertaram durante uma escala no Canadá.

Em Toronto, ela lançou um livro sobre sua própria história. E depois disso, foi convidada para se tornar embaixadora da Boa Vontade da ONU a fim de ajudar vítimas de guerra. Desde então, ela já visitou diversos países para contar sua história. Em um discurso para veteranos da Guerra do Vietnã, em 1996, ela disse que perdoava os agressores.

“Minha vida deve mostrar que o perdão é mais poderoso do que qualquer arma de guerra. O perdão é um passo muito importante em direção à paz”, disse, em entrevista em 2010.