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A segunda-feira trouxe uma triste notícia: aos 95 anos, perfeitamente lúcido, faleceu o historiador Eric J. Hobsbawm.

Provavelmente, aqueles que não lidam diretamente com a História não tenham ouvido falar dele. É pena, pois o grande mérito de Hobsbawm,  a meu ver, foi trazer a público uma síntese portentosa do século XIX (A era das revoluções, A era do capital, A era dos impérios) além de uma síntese do século XX (O curto século XX). Isso numa linguagem que fugia ao academicismo da maioria das obras historiográficas que temos, inacessíveis aos mortais comuns pelo rebuscamento e hermetismo da linguagem.

Ele não. Escrevia bem, qualquer pessoa podia pegar seus livros e encantar-se com uma erudição capaz de se fazer compreensível por qualquer leitor.

Além dessa obra mais conhecida, ele escreveu sobre Jazz, sobre a invenção das tradições, sobre rebeldes e bandidos, sobre trabalhadores.

A historiografia, sem dúvida, perdeu muito.

Em janeiro do ano passado, em entrevista, ele apontava riscos do momento presente:

– Em períodos de grande descontentamento como o que começamos a viver, o grande perigo é a xenofobia, que alimentará e será por sua vez alimentada pela extrema direita. E quem essa extrema direita buscará? Buscará atrair os “estúpidos” cidadãos que se preocupam com seu trabalho e têm medo de perdê-lo. E digo estúpidos ironicamente, quero deixar claro. Porque aí reside outro fracasso evidente do fundamentalismo de mercado. Deu liberdade para todos, e a verdadeira liberdade de trabalho? A de mudá-lo e melhorar em todos os aspectos? Essa liberdade não foi respeitada porque, para o fundamentalismo de mercado isso tinha se tornado intolerável. Também teriam sido politicamente intoleráveis a liberdade absoluta e a desregulação absoluta em matéria laboral, ao menos na Europa. Eu temo uma era de depressão.

E para aqueles que gostam de ridicularizar “um certo presidente” do Brasil, eis o que ele, lá da Inglaterra, na mesma entrevista falava:

Pense num país maior, o Brasil. Lula manteve algumas idéias de estabilidade econômica de Fernando Henrique Cardoso, mas ampliou enormemente os serviços sociais e a distribuição. Alguns dizem que não é suficiente…

– E você, o que diz?
– Que não é suficiente. Mas que Lula fez, fez. E é muito significativo. Lula é o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. E ninguém o havia feito nunca na história desse país. Por isso hoje tem 70% de popularidade, apesar dos problemas prévios às últimas eleições. Porque no Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles, desenvolvendo ao mesmo tempo a indústria e a exportação de produtos manufaturados.

Entre a Veja, a Folha e o Hobsbawm, eu fico com este último!